16 de maio de 2014

Despedida - Mia Couto, In Raiz de Orvalho e outros poemas, 1999

Art by Yarek Godfrey

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos 
quando anunciaste a despedida 
e eu que habitara lugares secretos 
e me embriagara com os teus gestos 
recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos 
porque ama os pescadores 

Impossível separarmo-nos 
agora que gravaste o teu sabor 
sobre o súbito 
e infinito parto do tempo 

Por isso te toco 
no grão e na erva 
e na poeira da luz clara 
a minha mão 
reconhece a tua face de sal 

E quando o mundo suspira 
exausto 
e desfila entre mercados e ruas 
eu escuto sempre a voz que é tua 
e que dos lábios 
se desprende e se recolhe 

Ali onde se embriagam 
os corpos dos amantes 
o teu ventre aceitou a gota inicial 
e um novo habitante 
enroscou-se no segredo da tua carne 

Nesse lugar 
encostamos os nossos lábios 
à funda circulação do sangue 
porque me amavas 
eu acreditava ser todos os homens 
comandar o sentido das coisas 
afogar poentes 
despertar séculos à frente 
e desenterrar o céu 
para com ele cobrir 
os teus seios de neve.

2 comentários:

Abdelcarin Aljon disse...

Olá minha amiga querida,
Lindo esse poema “Despedida” de Mia couto, aliás esse livro Raiz de orvalho e outros poemas é uma preciosidade.
Estava com saudades do seu blog. Foi muito bom voltar aqui depois de tanto tempo.
Beijos!
Ab :-)

Elaine Faria disse...

Olá meu amigo Ab, você me faz imensamente feliz com sua visita e comentário. Realmente esse livro de Mia Couto contém poemas belíssimos, como você disse... "uma preciosidade".
Que bom que você ficou com saudades do Blog. Espero que você não mais se afaste dele por tanto tempo.
Beijos! : )