29 de abril de 2014

então... por Lenívia Mendes

Então eu decidi. 
Decidi ser mais livre, mais despegada e mais forte. Decidi ir pra frente, sem planos e sem mapas. Atravessar a insegurança sem olhar pros lados. Se o medo me atropelar, a coragem me presta socorro. Decidi escolher as lágrimas que eu vou chorar. Eu mesma vou escolher quais pedaços da vida eu vou devorar e quais eu coloco na marmita pra mais tarde. Nem tudo tem o gosto bom, mas os sabores às vezes nos surpreendem. 

Então eu vi. 
Vi com olhos atentos que a leveza de dentro não tem preço e que as coisas que nos arrancam sorrisos são aquelas nas quais não se pode colocar um código de barras. Vi que há mais cores no mundo do que somos capazes de nomear. As palavras não alcançam a infinitude de possibilidades que o mundo oferece. Vi que as pegadas que ficaram atrás de mim não seguem em linha reta, por mais que o plano tenha sido linear. 

Então eu entendi. 
Entendi que não dá pra passar pela vida sem viver. Que quando eu me mexo a vida mexe junto. Entendi que o mundo é imenso e não vai dar tempo mesmo de ver tudo. Mas as paisagens e ruínas mais bonitas são as que estão dentro da gente. Entendi que não dá pra caminhar sozinha, por mais que a nossa solidão seja segura. Há segredos que precisam de outros ouvidos e precisam ter morada em outros corações.  

Então eu experimentei. 
Experimentei novos lugares, novas comidas, novas canções, novos lábios e novas companhias. Experimentei até companhia nenhuma. Experimentei a liberdade e sinto o gosto dela toda noite antes de dormir. Daria tudo o que tenho de mais valioso pra tê-la sentido antes. Mas daí eu não seria quem eu sou hoje. Sou o meu passado, a dor e a alegria da minha história. Experimentei a farsa de ser uma só, até cansar e entender que sou várias. 

Então eu deixei. 
Deixei de lado o que doeu. Hoje nem dói mais tanto assim. Deixei boas e más impressões, mas já saí sem deixar nada também. Facilmente eu passo sem deixar marcas, indiferente. Deixei palavras escritas, poucas faladas e outras travestidas de silêncio. Deixei pouco, mas trouxe muito. Trouxe muito mais do que lembranças, trouxe a gratidão costurada na pele. E a certeza de que jamais serei capaz de devolver ao mundo e às pessoas o que me foi dado.

Fonte: http://www.dentrodeumacancao.com.br/

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