19 de abril de 2014

A Moça Tecelã... por Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.
Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.
— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte."

Fim

(Texto extraído do livro "Doze Reis e a Moça no Labirinto do Vento" de Marina Colasanti)

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Emfaria achei o texto altamente significativo. Algo relativo ao impulso da criatividade, bastante compulsivo, pleno de talento e vida, mas que vai tomando o espaço da vida “do lado de fora”. Talvez, por causa do nosso papo sobre vidas virtuais, eu tenha feito a analogia. As artes que recriam a vida podem ser tão perfeitas que, em determinado momento, plasmam o primeiro plano.
O sol que eu pinto na tela “passa a me iluminar” e eu cerro a janela achando que o sol lá fora que queima e me obstrui a visão, ou não é importante, ou não é sol quando o comparo com a da minha tela. É algo por aí... mas pode ser que não seja nada disso. Acho que as estradas estão sempre abertas e nós é que desistimos de percorrê-las. Ficamos, cada um a seu modo, tecendo nossas telas. Bj. T
P.S. Quem sabe, T não é de Tecelão?

Elaine Faria disse...

Querido amigo grata por esse belo e reflexivo comentário. Concordo contigo, os caminhos estão abertos bem a nossa frente e as vezes ficamos estacionados em uma zona de conforto (mesmo que não seja tão confortável assim) do que arriscarmos dar o passo seguinte, ou seja a escolha de um novo caminho.
Esse conto de Marina Colasanti leva a construção de várias teorias e reflexão literárias e sociológicas, mas o importante é essa possibilidade que nos dá de visualizarmos no texto os nossos próprios sentimentos a partir da percepção que temos do momento em que estamos vivendo quando entramos em contato com o texto.
Marina Colasanti aborda em seu conto o livre arbítrio, já que a moça tecelã faz as escolhas que mudam sua vida e quando nota o sofrimento que elas trazem, apenas destrói com suas próprias mãos aquilo que criou. A vida, porém, não é um ensaio, nem sempre, dependendo da realidade que estamos vivendo, temos o direito de fazer esta escolha.
Você tem razão meu amigo, tu es um grande Tecelão de ideias e palavras, basta fazer a escolha quando se sentir pronto.
Grande Beijos!
Elaine : )