31 de março de 2014

Herbert Marcuse: reflexões sobre a sociedade tecnológica por Ivana Mussi Gabriel


1 - Introdução

A livre escolha entre a larga quantidade de bens e serviços não significa liberdade quando estes bens e serviços mantêm o controle social sobre uma vida de esforços e medo, ou seja, de alienação.Herbert Marcuse (O Homem Unidimensional)

Herbert Marcuse, um dos mais importantes teóricos do século XX, foi aclamado mundialmente como o filósofo da libertação e da revolução. Seu trabalho influenciou uma geração de intelectuais e ativistas radicais. Seus livros foram discutidos, atacados e celebrados, tanto nos meios de comunicação de massa, quanto nas publicações acadêmicas.

Filho de judeus, Herbert Marcuse nasceu em Berlim, Alemanha, em 1898. Como um intelectual de esquerda, ingressou, em 1933, no Instituto de Pesquisa Social. Fundado em 1923, junto à Universidade de Frankfurt, tal instituto foi considerado o primeiro de orientação marxista na Europa, composto por marxistas não-ortodoxos, como Max Horkheimer, Theodor Adorno, Walter Benjamin e Jürgen Habermas. O Instituto tinha como objetivo precípuo desenvolver uma teoria social crítica, de análise e interpretação da realidade social existente.

Contudo, entre 1942 e 1951, o filósofo alemão, exilado nos Estados Unidos da América, em razão da perseguição nazista aos judeus, prestou serviços ao governo americano, em especial aos órgãos de informação relacionados à Segunda Guerra Mundial e ao Departamento de Estado. Foi um período histórico conturbado, pois marcado pela ascensão e derrocada do nazismo na Alemanha e pelo surgimento da Guerra Fria, que provocou a divisão do mundo entre duas superpotências: Estados Unidos da América e União Soviética.

O trabalho dos anos 40, definitivamente, forneceu a Herbert Marcuse uma melhor compreensão histórica das sociedades capitalista, comunista e uma sólida base histórico-empírica para seu pensamento e escritos posteriores. Nesse sentido, em 1964, Herbert Marcuse escreve a obra "A Ideologia da Sociedade Industrial", apresentando uma teoria de crítica às novas formas de dominação existentes nas sociedades industriais avançadas.

Para o autor, o Estado do Bem-Estar Social e seus avanços tecnológicos são os responsáveis pelo sistema totalitário de dominação. Prescrevem uma nova ideologia, de imposição de uma racionalidade institucional ou tecnológica em relação à racionalidade individual, submetendo o homem a uma completa alienação.

A mecanização força o competidor mais fraco a submeter-se ao domínio das grandes empresas da indústria mecanizada. De fato, a racionalidade tecnológica causa a denominada "mecânica do conformismo", que nega qualquer tipo de manifestação individual revolucionária dentro de uma sociedade totalmente planejada.

Hoje, o livro "A Ideologia da Sociedade Industrial" representa uma viva referência ao questionamento do sistema capitalista globalizado, uma crítica válida à tecnologia moderna, que define um estilo de vida ao homem, através de um falso modelo de liberdade de escolha, que será devidamente abordado no presente trabalho.

2 - Sociedade Unidimensional

A sociedade industrial avançada, objeto de reflexão na obra "A ideologia da Sociedade Industrial", pode ser definida como a sociedade tecnológica, do artificialismo, da racionalidade institucional. É a sociedade sem oposições, de nivelamento. O filósofo alemão utiliza a expressão "sociedade unidimensional" justamente para demonstrar o controle que este tipo de sociedade exerce sobre as consciências humanas.

A sociedade unidimensional em desenvolvimento altera a relação entre o racional e o irracional. Contrastado com os aspectos fantásticos e insanos de sua irracionalidade, o reino do irracional se torna o lar do realmente racional, das idéias que podem promover a arte da vida (MARCUSE, 1973, p.227).

Dentro deste contexto, Lewis Munford caracteriza o homem, na era da máquina, como uma "personalidade objetiva", alguém que aprendeu a transformar toda espontaneidade subjetiva à maquinaria que serve, a subordinar sua vida à "factualidade" ("matter-of-factness"), de um mundo em que a máquina é o fator e ele o instrumento (1).

Para Herbert Marcuse, a tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos, invenções, é uma forma de organizar e modificar as relações sociais. Reproduz, fielmente, a manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes. Enfim, trata-se de um verdadeiro instrumento de controle e dominação. E isso ocorre em razão da organização do aparato industrial, voltado totalmente para a satisfação das necessidades crescentes dos indivíduos.

De fato, uma sociedade avançada, em razão do progresso tecnológico, somente se sustenta quando organiza e explora, com êxito, a produtividade da civilização industrial. A crescente produtividade de mercadorias e serviços traz consigo atitudes e hábitos prescritos, que acabam mobilizando a sociedade em seu todo, com a promessa utópica do ócio, do entretenimento e lazer organizados.

Nesse sentido, a sociedade moderna, sustentada sob o aparato tecnológico, tende a tornar-se totalitária. E como tal, pode exigir dos indivíduos, justificadamente, a aceitação de seus princípios e instituições, pois tem como legítimo objetivo o aumento da produtividade para a satisfação das necessidades do homem. Para Marcuse, o sentido da expressão "totalitária" não é utilizado apenas para caracterizar o sistema terrorista de governo, mas para definir o sistema específico de produção e distribuição em massa, que existe em razão da manipulação do poder inerente à tecnologia.

Herbert Marcuse sintetiza todo seu entendimento através de um exemplo simples:

Um homem, que viaje de carro a um lugar distante, escolhe a rota de sua viagem num guia de estradas. Cidades, lagos e montanhas aparecem como obstáculos a serem ultrapassados. O campo é delineado e organizado pela estrada: o que se encontra no percurso é um subproduto ou anexo da estrada. Vários sinais e placas dizem ao viajante o que fazer e pensar. Espaços convenientes para estacionar foram construídos onde as mais amplas e surpreendentes vistas se desenrolam. Painéis gigantes lhe dizem onde parar e encontrar a pausa revigorante. A rota é feita para o benefício, segurança e conforto do homem. E a obediência às instruções representa o único meio de se obter resultados desejados (MARCUSE, 1998, p.79).

Assim, o sistema de vida prescrito pela indústria moderna é, aparentemente, da mais alta eficácia, conveniência e eficiência. Assim, aquele que seguir as instruções será bem-sucedido, subordinando sua espontaneidade à sabedoria anônima que ordenou tudo para ele.

Sobre o aspecto de dominação da sociedade unidimensional, Luiz Nazário comenta:

Para Marcuse, a dominação funciona como administração total das necessidades e prazeres, escravizando o homem no trabalho e no lazer, preenchendo o tempo livre dos indivíduos com programações dirigidas, fabricando uma humanidade apta a consumir objetos inúteis, cuja obsolescência fora desejada. A administração da sociedade unidimensional encarrega-se de gerar o bem-estar tanto a Leste quanto a Oeste, tornando ineficazes os protestos tradicionais (NAZÀRIO, 1998, p.84).

Em síntese, a sociedade industrial avançada impõe uma racionalidade tecnológica. Ser bem-sucedido significa adaptar-se ao aparato, ou seja, às instituições, dispositivos e organizações da indústria. Não há lugar para a autonomia humana, para independência de pensamento, nem para o direito de oposição.

A autonomia da razão encontra seu túmulo no sistema de controle, produção e consumo padronizado. E os mecanismos da racionalidade institucional, difundidos por toda a sociedade, portanto, desenvolvem um conjunto de valores de verdade próprios, que servem apenas ao funcionamento do aparato industrial.

3 - Direitos e liberdades individuais na sociedade industrial.

Os direitos e liberdades individuais, fatores vitais na origem da sociedade industrial, perdem o sentido e conteúdo tradicionais, pois uma vez institucionalizados compartilham do mesmo destino da sociedade integradora. A liberdade individual, na sociedade tecnológica, torna-se, sobretudo, uma liberdade de morte, de ausência de valores, alienação do indivíduo e degradação social.

Tudo contribui para transformar os instintos, os desejos e pensamentos humanos em canais que alimentam o aparato tecnológico. O homem médio, dificilmente, importa-se com outro ser vivo com a intensidade e persistência que demonstra por seu automóvel. A máquina adorada não é mais matéria morta, mas se torna algo semelhante a um ser humano. Herbert Marcuse fala em "mecânica do conformismo", afirmando que, diante da satisfação das suas próprias necessidades, o homem deixa de contestar o atual sistema capitalista de consumo.

Com relação às necessidades, Herbert Marcuse realiza a distinção entre as necessidades falsas e as necessidades verídicas. As necessidades falsas são determinadas por forças externas, a qual o indivíduo não possui controle algum. Tais necessidades são produto de uma sociedade totalitária, repressora dos pensamentos e comportamentos humanos. Por outro lado, as necessidades verídicas representam a realização de todas as necessidades vitais, reais, como ao alimento, roupa, teto.

Ora, como o homem pode criar condições de liberdade se ele acaba se identificando com a sociedade tecnológica? Para Herbert Marcuse, toda libertação depende da consciência de servidão, porém o surgimento desta consciência acaba sendo impedido pela predominância das necessidades falsas e das satisfações repressivas do próprio indivíduo. O ideal seria a substituição das necessidades falsas e o abandono da satisfação repressiva, mas isto parece ser uma utopia para o autor.

De fato, no entendimento de Herbert Marcuse, a livre escolha entre a ampla variedade de mercadorias e serviços não significa liberdade quando estas mercadorias e serviços mantêm o controle social sobre uma vida de trabalho e temor. O que determina o grau de liberdade, portanto, é o que pode ser escolhido e o que é escolhido pelo indivíduo.

Definitivamente, na sociedade tecnológica, a produção e a distribuição em massa reivindicam o indivíduo inteiro, através da invasão no seu espaço privado, na sua liberdade interior. Há uma identificação imposta do indivíduo com a sociedade e com a sociedade em seu todo. Herbert Marcuse denomina tal fenômeno de "mimese". Significa dizer que os controles tecnológicos representam a própria personificação da razão para a consecução dos interesses de todos os grupos sociais.

Nesse sentido:

Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias, casa, alimento, roupa, a produção irresistível da indústria de diversão e informação, trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais, que prendem os consumidores aos produtos. Os produtos doutrinam, manipulam, promovem uma falsa consciência. Estando tais produtos à disposição de maior número de indivíduos e classes sociais, a doutrinação deixa de ser publicidade para tornar-se um estilo de vida (MARCUSE, 1982, p.31 e 32).

Assim, a racionalidade tecnológica, existente na sociedade industrial avançada, constitui etapa mais progressiva da alienação do indivíduo, ou seja, da perda completa de sua individualidade, de sua racionalidade crítica. A alienação torna-se inteiramente objetiva. Surge um padrão de pensamento e comportamento unidimensionais, no qual as idéias, as aspirações e os objetivos são redefinidos pela racionalidade do sistema.

A sociedade industrial avançada transforma todo progresso científico e técnico em instrumento de dominação. Quanto mais a tecnologia cria as condições para pacificação, mais a mente e o corpo do homem são organizados contra essa alternativa. É a contradição interna desta civilização: o elemento irracional de sua racionalidade.

Portanto, a sociedade industrial acaba sendo organizada para a dominação do homem e da natureza, para utilização eficaz de seus recursos. Torna-se irracional quando o êxito desses esforços cria novas dimensões de realização humana, ou seja, esforços intensos para conter tal tendência no seio destas instituições.

Além disso, a dominação estende-se a todas as esferas da vida pública e privada, integra toda oposição autêntica, absorve todas as alternativas. A racionalidade tecnológica revela o seu caráter político ao se tornar o melhor veículo de dominação, criando um universo totalitário, no qual a sociedade, a natureza, o corpo e a mente mantêm-se num estado de permanente mobilização para defesa desse universo.

4 - Conclusão.

A importância da contribuição de Herbert Marcuse foi desenvolver uma teoria social crítica, para a superação da sociedade industrial de exploração e o resgate da racionalidade crítica, tão importante para a existência humana. O autor considerou o progresso tecnológico como o responsável pelo sistema de dominação da natureza e da própria consciência do ser humano.

Na sociedade industrial avançada, os meios de transporte e comunicação em massa, a produção irresistível das mercadorias e serviços trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, que prendem os consumidores aos produtos. O consumismo em massa acaba promovendo uma falsa satisfação das necessidades dos seres humanos e a completa dominação da consciência humana.

A dominação do mundo capitalista globalizado nutre-se da uniformidade do comportamento do indivíduo que, consciente de estar inserido num estilo de vida libertário, acaba abdicando da capacidade de conduzir-se com autonomia. Definitivamente, a produção em massa mecanizada acaba por preencher os espaços nos quais a individualidade poderia se afirmar.

Com o crescimento da conquista tecnológica da natureza, cresce a conquista do homem pelo homem. E essa conquista reduz a liberdade, que é um a priori necessário da libertação. Isso é liberdade de pensamento no único sentido em que o pensamento pode ser livre no mundo administrado, como a consciência de sua produtividade repressiva e como a necessidade absoluta de romper para fora desse todo (MARCUSE, 1973, p. 232).

É a irracionalidade da sociedade racional, pois na sociedade de domesticação pelo consumo, o pensamento humano decorre do processo da máquina. Há uma razão instrumental, imposta a todos, que constitui a ideologia da sociedade tecnológica avançada. Ideologia esta que controla a natureza, o corpo e a mente humana, fazendo com que a liberdade na sociedade industrial seja uma liberdade de morte.

Para Herbert Marcuse, o processo de emancipação somente será viável com a denominada "Grande Recusa", ou seja, uma recusa absoluta do sistema de vida estabelecido, que deve ocorrer através de manifestações revolucionárias lideradas pela juventude, e não pelo povo. O povo, anteriormente, fermento da transformação social, transformou-se no fermento da coesão social, pois inserido no sistema do aparato tecnológico e destituído de qualquer forma tradicional de protesto.

No livro Eros e Civilização, o autor aborda tal protesto da juventude contra sociedade tecnológica, que disciplina o corpo e mente dos seres humanos:

È a vida deles que está em jogo e, se não a deles, pelo menos, a saúde mental e capacidade de funcionamento como seres humanos livres de mutilações. O protesto do jovem continuará porque é uma necessidade biológica. Por natureza, a juventude está na primeira linha dos que vivem e lutam contra uma civilização que se esforça para encurtar o atalho para a morte (MARCUSE, 1978, p. 23).

De fato, em 1968, em todas as partes do mundo, eclodiram movimentos revolucionários estudantis. Um verdadeiro acontecimento histórico. Tais movimentos representaram o heroísmo de uma juventude, que repudiava as guerras imperialistas, as ditaduras, o socialismo burocrático e o capitalismo liberal, buscando questionar as idéias dominantes e resgatar a liberdade individual perdida.

Sem dúvida, a obra "A Ideologia da Sociedade Industrial", escrita por Herbert Marcuse, em 1964, incendiou a imaginação destes estudantes, trazendo as reflexões necessárias para justificar a eclosão de manifestações revolucionárias em busca da emancipação de todo tipo de sociedade de exploração.

Nenhum comentário: