15 de fevereiro de 2014

Cyrano de Bergerac

"Como acontece a alguém que fita o sol dourado, e vê depois em tudo um círculo encarnado, tal eu, quando não estás e o meu sol é posto, vejo, em tudo que vejo, o brilho do teu rosto".

Cyrano de Bergerac



O Valente espadachim e romântico poeta Cyrano e Bergerac não é fruto da imaginação criativa de Edmond Rostand : Saviniano Hércules Cyrano de Bergerac nasceu em Paris em 1619. Aos 19 anos abraça a carreira militar, tornando-se cadete da Guarda de Paris. Participa de várias batalhas, inclusive do cerco de Arras , onde recebe forte golpe na garganta, o que encerra sua vida militar. Em 1653, passa a trabalhar na casa do duque de Arpajon, instalando-se no palácio de Marais, onde é ferido na cabeça devido à queda de um pedaço de madeira do teto. Em 1655, pressentindo a morte, vai para a casa de uma prima- a baronesa de Neuvillette-, vindo a falecer cinco dias depois. Cyrano talvez não tenha tido a coragem, o heroísmo e a nobreza do personhagem de Rostand. Mas era um homem polêmico e dedicado à cultura.
Foi escritor, teatrólogo, filósofo, ensaísta, comediante e boêmio. E parece que tinha realmente um enorme nariz, motivo de zombarias que o levavam a bater-se em duelo com muita freqüência. Sua obra é pouco expressiva, mas curiosa. Escreveu um volume de Cartas, muitas contendo ataques vigorosos a personalidades da época; uma comédia, Le pédant joué, onde critica seus antigos chefes militares; uma tragédia. A morte de Agripina, citada na peça de Rostand; e uma obra audaciosa, chamada O outro mundo. Muitos dos fatos e personagens incluídos em Cyrano de Bergerac são verídicos, como a batalha de Arras e o inimigo Montfleury. O famoso escritor Moliér foi realmente contemporâneo de Cyrano, e parece Ter sofrido alguma influência dele ( na peça , é acusado de plagiá-lo). Rostand cita também personagens de outros autores do século XVII, como por exemplo D'Artagnan, o conhecido herói da obra Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas.

Quanto a Roxana, teria sido a prima que acolheu Cyrano pouco antes de sua morte. Não se sabe , porém, se a devotada paixão do célebre narigudo era real, nem tão intensa. Na peça , a jovem aparece como uma "preciosa", uma típica mulher da sociedade parisiense de meados do século XVII, que frequentava salões mundanos, usando linguagem rebuscada e artificial. Embora Molière as tenha satirizado em sua peça As Preciosas ridículas, Rostand não apresenta uma Roxana caricatural, apesar de ela se mostrar um tanto frívola e fascinada pela literatura empolada de Cyrano. Cyrano de Bergerac foi representada em inúmeros paises. No Brasil foi traduzida em 1907 por Carlos Porto Carreiro, cujo trabalho admirável é uma verdadeira proeza de habilidade linguística.



Cyrano de Bergerac é a obra prima do escritor francês Edmond Rostand, e foi um sucesso monumental no século XIX. Na época, o teatro francês estava mergulhado na mesmice e em peças que não agradavam o público. Porém, os versos românticos e decididos conquistaram a população e transformaram o espadachim Cyrano em um herói poético e altruísta.

A peça conta as aventuras de Cyrano de Bergerac, um soldado, músico, astrônomo e poeta, que se apaixona por sua prima Roxana, mas ele mantém esse amor em segredo pois acredita que sua aparência física não vá agradar a moça, pois em seu rosto se destaca um nariz enorme. Por causa disso, ele se sente tão feio e complexado que acredita que moça alguma um dia há de querer algo com ele.
Acontece que um novo recruta, Cristiano, se apresenta no regimento de Cyrano. Ele é lindo, mas nada inteligente, mas só sua aparência já é o suficiente para despertar o amor de Roxana, que pede ao primo que proteja o rapaz.
Cumprindo sua promessa, Cyrano torna-se amigo de Cristiano e descobre que o rapaz não consegue se declarar a Roxana, pois não tem palavras para expressar seus sentimentos. Cyrano faz então um proposta: ele escreveria as cartas que Cristiano entregaria a Roxana, juntando assim a beleza de um com a inteligência do outro.

"Cristiano (com desespero)
Se eu tivesse eloquência e frases...
Cyrano (num arranque)
Eu te empresto!
Empresta-me também tua figura bela:
E formemos os dois o herói duma novela!"

Cyrano passa a escrever cartas de amor maravilhosas, onde declara todo seu amor a Roxana assinando como Cristiano. A moça se encanta e se apaixona pelas cartas, a ponto de enfrentar sua família e casar-se em segredo com Cristiano. É nesse ato (o terceiro), que acontece a melhor cena da peça. Cristiano, achando que já ganhara Roxana, tenta se declarar sozinho a ela, mas as frases simples e curtas declaradas por ele não interessam a moça. Cyrano, escondido sob a sacada, fala por Cristiano, e é aí que vemos os poemas mais doces e românticos da peça.

"Adoro-vos! Eu te amo!
Eu sufoco; inda mais: desvairio, perco o siso.
Teu nome no meu peito é grânulo dum guizo:
Eu tremo, e esse tremor vibrante me atraiçoa.
Pois sempre o guizo treme... e sempre o nome soa!"

Imagino que todos vocês já conheçam a história de Cyrano, portanto estou parando por aqui, não vou soltar spoillers aos desavisados que cometem a insanidade de ainda não terem lido esse livro. As descrições do cenário são bastante ricas, detalhadas, e levam o leitor a imaginar perfeitamente a cena. A peça inteira é escrita em forma de poema, com versos limpos e melódicos, com destaque para os românticos. E o melhor, não tem vocabulário rebuscado para dificultar a leitura, que flui naturalmente.
Cyrano é bastante altruísta, disposto a tudo para fazer sua amada feliz, mesmo que para isso tenho que vê-la nos braços de outro. Cristiano, mesmo com todo o desespero em conquistar Roxana, mostra-se verdadeiramente apaixonado. O que faz com que seja difícil escolher um preferido entre os dois.

A questão estética abordada no texto é válida ainda nos tempos de hoje; afinal, o amor é desencadeado pela beleza ou pela inteligência? Não há quem nunca tenha se atormentado com essas perguntas, e passado horas a fio na frente do espelho ensaiando um modo de se aproximar do amado. Em Cyrano de Bergerac, o autor propõe enfrentar esse desafio, mostrando que, para o coração puro, o conteúdo e o sentimento verdadeiro valem muito mais que beleza.

Cyrano de Bergerac no cinema
  • Houve também versões com livre adaptação, inclusive alguma comédias, como Roxane, com Steve Martin e Daryl Hannah, em 1987.
  • Em 1990, Gerard Depardieu interpretou Cyrano, sob a direção de Jean-Paul Rappeneau e a adaptação de Jean-Claude Carrière e Jean-Paul Rappeneau, num filme franco-húngaro.

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Cyrano de Bergerac ~~ poema de Edmond Rostand


Que queres que eu te faça?
Que vá ver um patrono em voga, um protetor,
E — como hera servil que em busca de um tutor
Lambe a casca do tronco em roda ao qual se torça —
Cresça por manha, em vez de me elevar por força? Obrigado.
Ofertar meus versos a um banqueiro,
Como é vulgar?
Fazer do vil pantomimeiro
Na esperança de ver nos lábios dum ministro
Sorriso que não tenha uns longes de sinistro?
Almoçar cada dia um sapo — e não ter nojo,
Gastar o próprio ventre a caminhar de rojo?
Obrigado.
Trazer os joelhos encardidos?
Exercitar a espinha em todos os sentidos?
Obrigado.
Acender um círio a São Miguel
E acender outro círio ao réprobo Lusbel?
Libertar o galé, com medo do patíbulo?
Andar a cada canto e sempre em turíbulo?
Obrigado.
Galgar trapézios de acrobata?
Ser um grande homenzinho em roda aristocrata?
Remar com os madrigais, e ter as bujarronas
Túmidas dos senis suspiros das matronas?
Obrigado.
Gozar de sermos editados
Pelo editor Sercy... pagando-lhe?
Obrigado.
Ser escolhido papa em todos os conclaves
Feitos por imbecis tão nulos quanto graves?
Obrigado.
Assentar meu nome e posição
Num tal soneto, em vez de fazer outros?
Não! Obrigado.
Encontrar talento nos sendeiros,
Aterrar-me de ouvir estranhos noveleiros,
E sentir um prazer na reles esperança
De ter qualquer menção no Mercúrio de França?
Obrigado.
Antepor — de medo e covardia —
Salamaleque infame a rútila poesia?
Redigir petições e pertencer a alguém?
Obrigado! Obrigado! Obrigado!...
Porém Cantar, sonhar, passar, ter liberdade e fibra,
Ter a vista segura, e ter a voz que vibra,
Pôr o meu feltro à banda, e — espanto dos perversos —
Por um sim por um não bater-me, ou fazer versos;
Trabalhar, sem ter fito em lucros e honrarias.
Numa excursão à lua e noutras fantasias!
Nada escrever jamais que eu mesmo não produza,
E, modesto, dizer à minha altiva musa:
"Seja do teu pomar — teu próprio — o que tu colhas
Embora fruto, flor ou simplesmente folhas".
Depois, se acaso a glória entrar pela janela,
A César não dever a mínima parcela,
Guardar para mim mesmo a gratidão mais pura;
Enfim, sem ser a hera — a parasita obscura —
Nem o carvalho e o til — gigantes do caminho —
Subir, não muito, sim, porém subir sozinho.

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Fonte de pesquisa: 
Wikipédia, a enciclopédia livre,
Shvoong, Blog http://www.quemlesabeporque.com e
http://lenitivocultural.blogspot.com.br.

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