16 de fevereiro de 2014

Cores Mornas por Lenívia Mendes



Eu andava pelo sol em busca de qualquer sombra que amenizasse o calor que eu trazia por dentro. Eu era toda fogo e ninguém via, porque por fora eu vestia um azul frio e tinha sempre as mãos geladas quando te encontrava. O vento que não cessava me deixava cada vez mais balançada e a sorte parecia não querer topar comigo nesse dia. Nada de sombra. Nada de chuva. Nada de brisa fresca. Eu podia sentir o pensamento feito brasa ardendo dentro da minha cabeça. Eram desses pensamentos que às vezes trago na coleira, apegada que sou, com medo de que ele se solte e eu não consiga mais pensá-lo novamente. Eram de um fogo bom. 

Inesperadamente, a direção dos ventos pareceu mudar a meu favor. Você passou a rua e me atravessou em cheio. Senti no corpo inteiro o choque que seu perfume e sorriso causaram em mim. Fiquei partida em duas. Por fora a dormência do frio. Por dentro a inquietação do calor. Suava e nem sabia por quê. Passei a ter a alma encharcada. Tão molhada que pesava. Estendi minha alma e estendi minha mão pra você. Assim que o céu abriu, você segurou minha mão e deixou minha alma secar ao vento. A sensação era de sossego. 

Mas o calendário foi implacável. Depois de um tempo, parecia que do seu lado da cama fazia muito calor e do meu lado o frio não me deixava dormir. Na busca pelo equilíbrio acabamos por deixar os sorrisos mornos. Dobramos os lençois e depois dobramos a esquina em direções opostas. Eu de bege, você de marrom. Das brasas que um dia me jogou resta somente a fumaça que ainda tem seu cheiro. Nevoeiro de passado que ainda me cega os olhos. Visto-me hoje de um vermelho quente, mas por dentro sou fria como a água de um rio que passa rápido e não se demora a ficar em poças. 

Eu hoje não sei mais que temperatura tem a saudade.

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