3 de janeiro de 2014

Hermann Hesse, o lobo da estepe - por IVO BARROSO


 art by Czech artist Jaroslav Bradac


Escrito em 1927, 0 lobo da estepe já desafiou incólume o gosto e as tendências de várias gerações e agora adentra o segundo milênio na certeza de que continuará a despertar a atenção de novos e mais céticos leitores. Porque este é um livro que não se lê inocuamente, por mera distração ou para se  estar em dia com os sucessos do momento. É um livro que mexe, que altera, que subverte a estrutura psíquica do leitor e se coloca além do tempo e de suas influências por se ter transformado num clássico. Por isso, mesmo aqueles que já o leram em outras fases de sua vida encontram na releitura uma nova satisfação, descobrem nas sutilezas de sua trama, na profundidade de suas cogitações, no intrincado de sua simbologia, outras revelações que a experiência da vida ou a apuração da sensibilidade literária lhes fará reconhecer.

                                                 art by Czech artist Jaroslav Bradac                                             
O LOBO DA ESTEPE

Eu, o Lobo da Estepe, vago errante
Pelo mundo de neve recoberto;
Um corvo sai de uma árvore, adejante,
Mas não há lebre ou corça aqui por perto!
Ansiando eu vivo de encontrar a corça,
Ah! se pudesse achar alguma um dia!
Tê-la entre os dentes, agarrá-la à força,
Nada mais belo para mim seria.
Havia de tratá-la tão cordial,
De cravar-lhe nas ancas o meu dente,
Beber-lhe o sangue todo, até o final
E uivar na noite solitariamente.
Até mesmo uma lebre hoje me basta!
À noite a carne tenra é preferida.
Porque sempre de mim logo se afasta
Tudo o que torna alegre a nossa vida?
Já meus pelos da cauda estão grisalhos
Nem posso ver mais nítida uma cousa;
Há muito que morreu a minha esposa
E vago e vejo corças nos atalhos,
E sonho e sinto lebres; a ânsia é tanta
Que ouvindo o vento uivar na noite incalma,
Com neve aplaco o fogo da garganta
E entrego ao diabo a minha pobre alma.
(Tradução de Ivo Barroso)

 art by Czech artist Jaroslav Bradac
Ich Steppenwolf trabe und trabe,
Die Welt liegt voll Schnee,
Vom Birkenbaum flügelt der Rabe,
Aber nirgends ein Hase, nirgends ein Reh!
In die Rehe bin ich so verliebt,
Wenn ich doch eins fände!
Ich nähm´s in die Zähne, in die Hände,
Das ist das Schönste, was es gibt.
Ich wäre der Holden so von Herzen gut,
Frässe mich tief in ihre zärtlichen Keulen,
Tränke mich satt an ihrem hellroten Blut,
Um nachher die ganze Nacht einsam  zu heulen.
Sogar mit einem Hasen wär ich zufrieden,
Süss schmeckt sein warmes Fleisch in der Nacht –
Ach, ist denn alles vor mir geschieden,
Was das Leben ein bisschen fröhlicher macht?
An meinen Schwanz ist das Haar schon grau,
Auch kann ich nicht mehr ganz deutlich sehen,
Schon vor Jahren starb meine liebe Frau.
Und nun trab ich und träume von Rehen,
Trabe und träume von Hasen,
Höre den Wind in der Winternacht blasen,
Tränke mit Schnee meine brennende Kehle,
Trage dem Teufel zu meine arme Seele.

HERMANN HESSE, dados biográficos

Contista, poeta, ensaísta e editor de importantes obras da literatura alemã, Hemann Hesse nasceu em 2 de julho de 1877 na pequena cidade de Calw, na Alemanha. Filho de um missionário, pregador pietista, Hesse passou a infância na sua cidade e de 1881 a 1886 viveu na Basiléia. Destinado desde cedo à carreira eclesiástica, frequentou em 1890 o colégio de Goppingen, diplomou-se em 1891, mas interrompeu os estudos de Teologia, fugindo do seminário de Maulbronner. Trabalhou como livreiro e como antiquário, dedicando-se exclusivamente à literatura a partir de 1903. Desencantado com a civilização européia, viajou para a Índia em 1911 a fim de conhecer a vida no Extremo Oriente. Pacifista, lutou contra “a loucura sangrenta da guerra”. Em seus textos, Hesse procurou se manter fiel às tradições literárias românticas e clássicas, em contraposição à “era folhetinesca” e propagandística. Esta índole romântica e mais sua tendência para a análise psicológica caracterizaram suas primeiras obras, como Peter Camenzind e Demian.  Sonho de uma flauta, Sídarta, Narciso e  Goldmund e O jogo das contas de vidro são algumas das muitas obras do escritor alemão que recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1946 e ­morreu em 9 de agosto de 1962.
Por muito tempo negligenciado na Alemanha, onde suas obras foram violentamente suprimidas pelo nazismo, Hermann Hesse conheceu nas últimas décadas uma revitalização de sua popularidade, quando uma classe de leitores passou a ver em seus trabalhos a imagem do “oriente-em-nós”, na expressão de Michael Adams.
Mesmo nas obras que não tratam explicitamente de temas orientais, Hesse se mostra sempre preocupado com aspectos da natureza humana que transcendem o esquema da filosofia positivista do Ocidente.


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“Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas.. Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma (…) Nosso Lobo da Estepe crê levar também em seu peito duas almas (lobo e homem) e por isso sente o peito demasiadamente oprimido e estreito… Crê, como Fausto, que duas almas são demais para um só peito e podem arrebentar com ele. Mas, ao contrário, são demasiado poucas…”
Hermann Hesse (1877-1962)

2 comentários:

David Lança disse...

Um grande autor, daqueles que podem ser decisivos para uma pessoa. Li vários dos seus livros e sempre com um grande encantamento e gosto.
Boa informação gráfica e escrita.

David

Elaine Faria disse...

Grata David!
Grata também por compartilhar publicamente essa minha postagem.
Grande abraço! : )