13 de julho de 2013

Romanza por Vinicius de Moraes



Branca mulher de olhos claros 
De olhar branco e luminoso 
Que tinhas luz nas pupilas 
E luz nos cabelos louros 
Onde levou-te o destino 
Que te afastou para longe 
Da minha vista sem vida 
Da minha vida sem vista? 

Andavas sempre sozinha 
Sem cão, sem homem, sem Deus 
Eu te seguia sozinho 
Sem cão, sem mulher, sem Deus 
Eras a imagem de um sonho 
A imagem de um sonho eu era 
Ambos levando a tristeza 
Dos que andam em busca do sonho. 

Ias sempre, sempre andando 
E eu ia sempre seguindo 
Pisando na tua sombra 
Vendo-a às vezes se afastar 
Nem sabias quem eu era 
Não te assustavam meus passos 
Tu sempre andando na frente 
Eu sempre atrás caminhando. 

Toda a noite em minha casa 
Passavas na caminhada 
Eu te esperava e seguia 
Na proteção do meu passo 
E após o curto caminho 
Da praia de ponta a ponta 
Entravas na tua casa 
E eu ia, na caminhada. 

Eu te amei, mulher serena 
Amei teu vulto distante 
Amei teu passo elegante 
E a tua beleza clara 
Na noite que sempre vinha 
Mas sempre custava tanto 
Eu via a hora suprema 
Das horas da minha vida. 

Eu te seguia e sonhava 
Sonhava que te seguia 
Esperava ansioso o instante 
De defender-te de alguém 

E então meu passo mais forte 
Dizia: quero falar-te 
E o teu, mais brando, dizia: 
Se queres destruir... vem. 

Eu ficava. E te seguia 
Pelo deserto da praia 
Até avistar a casa 
Pequena e branca da esquina. 
Entravas. Por um momento 

Esperavas que eu passasse 
Para o olhar de boa-noite 
E o olhar de até-amanhã. 

Uma noite... não passaste. 
Esperei-te ansioso, inquieto 
Mas não vieste. Por quê? 

Foste embora? Procuraste 
O amor de algum outro passo 
Que em vez de seguir-te sempre 
Andasse sempre ao teu lado? 

Eu ando agora sozinho 
Na praia longa e deserta 
Eu ando agora sozinho 
Por que fugiste? Por quê? 
Ao meu passo solitário 
Triste e incerto como nunca 
Só responde a voz das ondas 
Que se esfacelam na areia. 

Branca mulher de olhos claros 
Minha alma ainda te deseja 
Traze ao meu passo cansado 
A alegria do teu passo 
Onde levou-te o destino 
Que te afastou para longe 
Da minha vista sem vida 
Da minha vida sem vista?

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