28 de maio de 2013

Paulo Leminski - Poemas


01
lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

02
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

03
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

04 e 05

LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em disfarces
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces

06
AÇO E FLOR
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

07
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

08
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

09
desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

10
para a liberdade e luta
me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido tocou a pedra da paixão



Paulo Leminski

Paulo Leminski, nascido em Curitiba/PR em 24 de agosto de 1944, foi poeta e tradutor. Passou a infância no interior de Santa Catarina, mas escolheu Curitiba para viver. Foi professor de história e redação, diretor de criação, redator de publicidade e colaborador do caderno Folhetim, da Folha de São Paulo. Seus primeiros poemas foram publicados na revista Invenção, em 1964, então porta-voz da poesia concreta paulista. A partir daí, seus textos passaram a ser publicados em inúmeros jornais e revistas de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Fez, ainda, resenhas de livros de poesia para a revista Veja. Em 1976, publicou Catatau. Em seguida, veio Caprichos e relaxos (1983), Agora é que são elas (1984), La vie en close (1991), além de traduções como Folhas das folhas da relva (1983), de Walt Whitman, e Supermacho (1985), de Alfred Jarry. Morreu em 07 de junho de 1989.




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