26 de maio de 2013

Eu (quase) te amo por Priscila Rôde


Chegou quando eu não mais esperava. Quando o olhar supostamente enclausurado abriu-se para o tento de sua chegada. Especiaria no meu prato, chegou delicado e nunca mais soube silenciar a fome de tato. Sem que eu imaginasse a dor de sua lonjura, deixou-se à beira do meu travesseiro e durou, ali, por mais uns trinta e cinco sonhos. Sem que eu demorasse no descruzar dos lábios, chegou e anulou o cansaço. Raso. E fechei as cortinas para lhe preparar um texto, como se fosse possível prendê-lo dentro do vazio do meu quarto. Movi a porta, tranquei a janela como se fosse possível privá-lo de qualquer raio de liberdade ou desinteresse.
Feito um pássaro doente, trôpego, aninhou-se no primeiro tronco do meu peito. Tronco desfiado, remontado pelo tempo. Agarrou-se à minha folha. Cantou uma ou duas palavras quase boas. Prendeu-se em meu dedo sem indicar o caminho das suas solturas. Chegou num Domingo à tarde, sem que eu merecesse. E logo depois as semanas adotaram o mesmo frescor daquele suspiro de Fevereiro. Chegou e teceu dois sossegos imensos. Voou pra cama sem sacudir as asas. E empoeirou a minha noite com a tua vida mal feita. Cuidei. Decorei. Preparei o abandono. Mensurei o silêncio. Abri meu jogo.
Chegou quando eu não mais esperava. Cruzou as esquinas todas desconhecidas do meu afeto. O caminho mais perto se refez longe. Chegou enquanto eu preparava o sorriso do dia seguinte, quando já não havia qualquer mútuo interesse. Se qualquer outro amor me deixasse ao lado, como esse, nem falta faria. Eu não sentiria sede. Mas nenhum Amor me ocorreu tão líquido daquele jeito. Pelo que não foi, continua mesmo quando acaba. Dói pra me provar o contrário: eu (quase) te amo — cedo, inevitavelmente. 

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