11 de janeiro de 2011

Amarcord de Federico Fellini


Tal como outros cineastas europeus contemporâneos (especialmente Ingmar Bergman) Fellini construiu seus filmes com os olhos voltados para personagens e temas levantados em trabalhos anteriores. O titulo, que ele insistiu ter escolhido pela sonoridade e não pelo significado, soa próximo de eu me recordo e se refere, talvez, principalmente ao que ele guardava na memória de seus primeiros filmes. É mais do que provável: a história possui verdadeiras lembranças da infância do diretor, mas desde seu título, desde a palavra que não existe, que foi inventada para dizer algo parecido com eu me recordo, o filme sugere que seu objetivo é lembrar-se de algo que não aconteceu. Fellini pode ter vivido enquanto criança numa província e num tempo parecido com o da cidade em que vivem os personagens de seu filme, mas como agora vive no cinema, ele adulto se encontra numa realidade|outra em que a memória pode ser livremente inventada, em que existe a possibilidade de pegar na memória até o que ainda não se encontra lá, recordar-se de outro modo, como sugere a imagem-título: Amarcord.

Mais precisamente, o filme é, sim, feito das lembranças da infância e adolescência do realizador, mas não como se ele tivesse ido buscar documentos para refrescar a memória – ele foi em busca dos filmes em que já tinha feito referências ligeiras a esta época de sua vida. Inventou uma ficção, não se propôs a uma reconstituição fiel, um documento. Não os fatos como eles efetivamente existiram, mas como foram afetivamente guardados na memória, a realidade filtrada, corrigida, criticada, reinventada pela imaginação: o que se passou reaparece numa imagem que é mais uma reflexão do que um reflexo, que é uma espécie de memória do vai acontecer daqui a pouco, uma lembrança antecipada de amanhã.

Zampanô, Guido, Trimalcione, Steiner, Snaporaz ou o tio Teo; Gelsomina, Cabiria, Saraghina, Gradisca, Luisa, ou a mulher gorda da tabacaria: Fellini conta histórias de personagens de ficção que ele viu em sonhos ou delírios e que existem para ele como se fossem pessoas vivas, como vizinhos, conhecidos, colegas de trabalho. Existem numa dimensão especial, em luzes e sons, e estimulam a brincadeira de fazer um filme, de repetir alegremente a mágica de dar vida a uma sala escura. Formas, músicas e ruídos livremente gravados num pedaço de filme sem outro qualquer compromisso além de convidar a platéia a participar de uma brincadeira.

“O palco com suas luzes apagadas exerce uma enorme fascinação sobre mim. Imaginar um cenário, maquiar um ator, vestí-lo, estimular seus gestos, são coisas que me dominam de forma absoluta. Sei bem que isto está fora de moda, que parece um modo de fugir da realidade. Sei dos limites, das alienações, dos riscos que tudo isto comporta. Mas não conheço outra maneira de me sentir à vontade, tão de acordo comigo mesmo. Só ao fazer cinema. Não sei mesmo distinguir um filme do outro – que dizer, falo de meus filmes. Tenho a sensação de haver filmado sempre a mesma coisa. São imagens, e somente imagens, que filmei utilizando o mesmo material. Fui, talvez, solicitado a cada instante por pressões diferentes, mas o mesmo material. O que sei é que obedeço um impulso para fazer um filme. Não digo isto para aparentar modéstia. Francamente, contar histórias me parece a única coisa que vale a pena ser feita. Quando eu realizo um filme me sinto livre, livre de todos os embaraços. Sinto que tenho sorte. Fico feliz ao participar outra vez deste brinquedo chamado cinema”.


Lançado em 1973, pode ser traduzido - Amarcord - por “io me ricordo” e, sendo assim, até ser entendido como uma autobiografia de Fellini.

A trilha sonora é do genial Nino Rota. Veja uma versão elegantíssima desta trilha: Amarcord di Nino Rota (Fausto Mesolella-Avion Travel)



Federico Fellini (Rimini, 20 de janeiro de 1920 — Roma, 31 de outubro de 1993) foi um dos mais importantes cineastas italianos.
Fellini ficou eternizado pela poesia de seus filmes, que mesmo quando faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam a magia do cinema desaparecer.
Trabalhou suas trilhas sonoras, na grande maioria das vezes com o grande compositor Nino Rota.

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre e escrevercinema

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