20 de dezembro de 2010

Almas férteis por Silvio Reda




Viver é um exercício constante de expansão e de introspecção. Há o momento de sairmos, de nos tornarmos transeuntes do mundo e há o instante de nos voltarmos para nós, tornando-nos agrimensores de nós mesmos.

Tanto sair como ingressar pressupõe compreensão. Compreender a si é imprescindível para entender o que está acontecendo fora de si. Ocorre que hoje em dia somente as atrações do mundo exterior são valorizadas e incentivadas. Aqueles que se dispõem a ver-se por dentro pagam a taxa de serem encarados como excêntricos.

Quem melhor se enxerga por dentro, mais nítida e honestamente transparece para fora. Esse desencontro consigo tem gerado uma sociedade apressada e que a quase tudo enxerga como algo descartável. Os sentimentos e as próprias pessoas passaram a mercadorias ambulantes.

Há um mercado de interesses e não uma comunidade de valores. Mas não precisamos ser pessimistas acreditando que estamos perdidos. Não estamos, o que há é que estamos, isso sim, desacostumados a valorar. Como o ex-aluno que há muito não vai à escola e perde o ritmo e o talento frente à realização das lições dadas e exigidas.

Há muito que não comparecemos às aulas dos verdadeiros e honestos sentimentos; há muito que deixamos de freqüentar a classe de um melhor comportamento moral e ético; há muito que deixamos de nos expressar por um olhar, por um abraço, por um beijo.

Estamos desabituados a estas singelezas e sutilezas da nossa própria natureza humana, porque um dia passamos a preferir a mecânica grosseira da satisfação rápida e interesseira de nossas necessidades, do que satisfazê-las diariamente pela própria noção de esforço e responsabilidade.

De sujeitos começamos a nos tratar como objetos. Contudo, há um fertilizante que nunca perece em nossas almas. Um fertilizante chamado amor.

Almas férteis são aquelas que permitem o plantio dos sentimentos e das intenções alheias em si e que do que em si possuem no outro plantam. Que confiam na boa semente de seu semelhante.

Que tratam e cuidam dessa cultura amorosa do dar e do receber sem a qual ninguém sobrevive.

Almas férteis se encontram no arado de um olhar, no adubo natural de um abraço, nas estações sempre propícias de se colherem beijos e mais beijos. Almas férteis alimentam e são alimentadas em qualquer situação. Sabem que nada é descartável, porém tudo inesgotável e por estarem cientes disso estão sempre prontas a recomeçar de qualquer oportunidade, pois toda ocasião, para elas, se torna um momento qualificado para melhorar o que em si sempre pode ser melhorado ampliando a realidade no cotidiano do mundo.

Almas fecundas não se encontram em qualquer fazenda existencial, mas toda fazenda é capaz de produzi-la e tê-la, pois onde houver sido deixada uma semente de amor haverá a capacidade divina de fazê-la fecundar.

Somos a semente e somos o solo. Que saibamos eclodir no solo alheio que nos recebe em seu plantio, bem como receber no nosso a semente que nos confiam fazendo dela planta que se soma e se integra a nós mesmos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá pessoal,

sou Sílvio Reda, quem escreveu o texto/crônica Almas Férteis. Fico muito feliz que após alguns anos de tê-lo escrito, embora não muitos, encontre este texto perambulando por diversos blogs e outros sites.
Agradeço aos comentários, à possibilidade da troca de energia.
No mais, este texto nos pertence, a todos, visto que não o fiz sozinho, mas na companhia de todos aqueles que, em um ou outro momento da vida, foram meus professores existenciais.

Abraço,

Sílvio Reda