17 de junho de 2010

Da Cor Inexistente... Ju Rigoni


Meus olhos negros
são tão azuis quanto os seus, -
olhos da cor do mar,
negros como os meus.

Mas o mar é mesmo azul?...

Minha pele morena
conta histórias de outras peles,
outros ares…
outras terras,
outras línguas,
aromas, paladares, -
deidades
que na paleta da natureza,
mãe de todas as cores,
comungam a mesma verdade.

Cores…
À luz, revelam-se,
mas em sua ausência
amam-se, -
unem-se em emoção única.

Meu sangue é brasileiro,
libanês, italiano, africano,
português, boliviano,
francês, japonês…
Meu sangue é só isto…
Só sangue!

Palavras
dão nome à cor sim.
Mas palavras
não têm cor não.
Palavras são
como deveriam ser
todos os homens
que insistem em dar cor,
números, fronteiras
a palavras e homens.

Minha cor
é fruto da árvore
- ora amor, ora libido -
que cresce em tantas outras…
Florestas que se plantam
não apenas em camas,
ou em chamas ardentes
que, indiferentes,
aquecem e deitam ao chão
tantas questões à mesa.
Florestas também semeadas,
paridas,
no leito do preconceito.

De um modo ou de outro
florestas que multiplicam-se
ininterruptamente…

Minha cor
é a cor do mundo.
Minha cor
e todas as cores
que a ignorância,
travestida em poder,
transforma em arma cruel
para distinguir seres humanos
de seres humanos.

Cor,
como a alma
e o amor ao próximo,
é lição
da qual o homem apropriou-se,
mas não aprendeu.

Nos livros da vida,
mais que nos da escola, -
mais ignota que desconhecida,
a aula de Transparência.

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