5 de agosto de 2008

Minha Mãe por Vinícius de Moraes

 Pintura de Vlastimil Hoffman 
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

**O poema acima foi extraído do livro "Vinicius de Moraes-Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 186.Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".


Um comentário:

fabio disse...

Oi Elaine,
que linda poesia do Vinicius para nos acalentar. Veja que texto bonito encontrei no site da pousada Contos de Minas, que bem retrata esse momento de ausência de nossa mãe:
"Hoje, ao nosso lado, falta uma pessoa querida, mas como tudo na vida está em constante movimento, outras pessoas chegaram, nós iremos e outras virão. Somos, assim, gratos ao passado e ansiosos pelo futuro."
Bjs, Fábio