24 de julho de 2008

"Querida Mamãe"... por Márcio Martins Faria

14/05/2000
Querida mamãe,

Como a senhora disse todo o dia é dia de mãe. Mas é muito justo ter um dia dedicado especialmente às mães servindo para a gente refletir a respeito.
Hoje, desde cedinho, estive rememorando a nossa vida, lembrando dos fatos e me preparando para telefonar para a senhora. Muita coisa me veio à memória e eu queria dizer tudo à senhora. Mas me emocionei e quando isso me acontece, simplesmente fico com a garganta presa e não consigo me expressar.
Me lembrei de quanto a senhora, e também o papai, foram bons para nós. Imagino que a maioria das mães são boas, mas algumas são especiais. A senhora é uma delas.
Não me lembro nunca de ter ouvido a senhora reclamar da vida difícil que levaram. Não me lembro da senhora ter fraquejado em momento nenhum na luta para, juntamente com o papai, fazer a sustentação da família. Me lembrei do papai pelejando com aquela fábrica de sorvetes e depois com os táxis. Que luta ele tinha. Imagino o sacrifício que era circular com aqueles carros velhos naquele calorão da cidade. Penso nos problemas mecânicos que os carros apresentavam e que muitas vezes, vocês possivelmente não tinham o dinheiro para consertá-los. Mas a casa continuava funcionando.
Me lembrei da luta que a senhora tinha com as costuras virando noites para cumprir com os compromissos. Me lembrei de que uma ou duas vezes alguma coisa deu errado com problemas no passar ou no cortar o tecido e a preocupação da senhora de como dar um jeito para resolver o caso. Me lembrei do acúmulo de costuras que a senhora tinha, pois não podia dispensar serviços porque necessitava de trabalhar.
Me lembrei de que sempre a senhora procurava alternativas para ganhar mais dinheiro. Me lembrei dos bordados. Me lembrei das máquinas de tricotar. Me lembrei de que às vezes a senhora mandava entregar uma costura contando em receber e a freguesa deixava para depois. Comparo com as dificuldades que passei na vida e imagino que eu sempre tive um salário que podia contar como certo no fim do mês. Então se não tivesse dinheiro naquele momento eu sabia que no dia do pagamento iria ter e sabia o quanto iria ter.
Isso não acontecia com a senhora e nem com o papai. Devia ser uma incerteza muito grande quanto ao dia seguinte. E quando ficava doente e tinha que trabalhar assim mesmo por que senão o sustento não aparecia??
Vocês foram os nossos heróis.
Me lembrei de que a senhora era, praticamente uma criança criada na roça, sem experiência de vida e casou-se, na flor da adolescência e virou esse gigante que superou tanta dificuldade.
Mas o mais importante é que, como eu disse não me lembro NUNCA de ter ouvido a senhora reclamar. Não me lembro NUNCA de ter presenciado desentendimentos entre a senhora e o papai por causa das dificuldades da vida. Só depois que nós os filhos viramos adultos é que me lembro de ter passado a ver pequenas “briguinhas” que vocês tinham, mas com profundo respeito um pelo outro e eram coisas sem importâncias e passageiras.
O espírito de luta da senhora e o respeito que tinham um com o outro foram exemplos que marcaram imensamente a mim.
Me lembrei de muito mais coisas mas não quero ficar revolvendo em palavras. Fica apenas na minha memória. E fica de uma maneira muito gratificante.
Por isso, querida mãe, é certo que todo o dia é dia de mãe. Mas é muito bom ter um dia especialmente reservado para a gente parar e pensar no amor que temos pela nossa mãe.
Esteja certa de que a senhora é um exemplo irretocável para mim, assim como é também o meu saudoso “Seu Faria” que tenho a felicidade de rever constantemente em sonhos.
PARABÉNS e cuide da saúde para ficar entre nós a maior quantidade de anos possível.
Um beijo carinhoso de seu filho,
Márcio


Um comentário:

Gabi disse...

Que linda essa carta... Chorei tanto quando li. Acho que vou chorar sempre. Que saudades que tenho da minha vózinha e do meu querido tio Márcio.
Eles comparilhavam um amor muito forte... Fico muito feliz que vovó e ele estejam juntos novamente.
Ambos cumpriram suas missões aqui muito bem.
Eu os amo muito.
Gabriela